Uso de Canabinoides no Tratamento da Epilepsia

Dr. Rafael Addum
Clínica Médica
09/02/16

O uso medicinal dos derivados do Cannabis, também conhecido por vários nomes populares, é um assunto muito controverso, pois apesar de essa planta possuir diversas substâncias com efeitos terapêuticos conhecidos, seu uso pode ser limitado por efeitos colaterais psicotrópicos e questões regulatórias com pesquisas científicas envolvendo essa droga.
As substâncias responsáveis pela maioria dos efeitos dos Cannabis são os canabinoides, especialmente o tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol. O uso medicinal dos canabinoides já foi bem estabelecido para condições como tratamento de náuseas em pacientes submetidos a quimioterapia e estimulador de apetite em pacientes com anorexia devido à síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS). Embora os canabinoides exerçam efeito sobre um determinado número de órgãos e tecidos, incluindo o sistema imunológico e reprodutivo, os principais efeitos farmacológicos estão ligados à ação no sistema nervoso central, sendo conhecidos também efeitos analgésicos e anticonvulsivantes.

Se você possui ou conhece alguém que tenha epilepsia, sabe que as drogas anticonvulsivantes tradicionalmente utilizadas no tratamento dessa condição possuem diversos efeitos colaterais indesejáveis relacionadas ao sistema nervoso central, como dor de cabeça, tonteiras, insônia, sonolência, entre outros. Apesar da existência de mais de 20 anticonvulsivantes e do tratamento adequado, 30% dos pacientes com epilepsia continuam tendo crises convulsivas. O sucesso no controle de formas graves de epilepsia em crianças após tratamento com canabinoides tem interessado pacientes, familiares e a comunidade médica. Por esse motivo, o uso dos derivados do Cannabis está atualmente sendo pesquisado intensamente pelos cientistas, como forma de tratamento alternativo e que ofereça maior tolerabilidade.

A ativação de receptores no sistema nervoso central (chamados de CB1R) pelos canabinoides levou a redução de crises convulsivas em diversos estudos experimentais com animais. Como o canabidiol é a substância derivada do Cannabis com menos efeitos psicotrópicos, a maioria dos ensaios clínicos em andamento utiliza extratos naturais contendo principalmente esse derivado. Uma substância desse tipo, chamada de Epidiolex, vem mostrando resultados promissores no controle de formas graves de epilepsia em crianças, como a síndrome de Lennox-Gaustat.

Os principais efeitos colaterais dos canabinoides em adultos são náuseas, fraquezas, alterações do humor, psicose, alucinações e tonteiras. No estudo envolvendo crianças, os principais efeitos colaterais foram sonolência (21% dos participantes), diarreia (17%), fadiga (17%) e perda do apetite (16%). Como sabemos, o uso recreacional a longo prazo do Cannabis é associado com risco de dependência. Pouco se sabe sobre esse risco quando se usa tratamentos derivados dos canabinoides.

Em conclusão, o uso dos canabinoides no tratamento da epilepsia parece ser efetivo, mas ainda não podemos bater o martelo. Apesar de haver muita crença popular nos efeitos “milagrosos” do Cannabis, poucos estudos de qualidade foram realizados com seres humanos e ainda precisamos de tempo e cautela antes que medicações contendo essas substâncias cheguem aos balcões das farmácias.

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