Razão, emoção e o Alzheimer.

Sobre a razão e a emoção, sabemos o que são, mas não sabemos definir seus respectivos conceitos com clareza. O dicionário classifica a razão como a faculdade de raciocínio, conhecimento e julgamento. Já a emoção um abalo afetivo, um sentimento que gera respostas fisiológicas no organismo.

Charles Darwin (1809-1882) foi pioneiro no estudo das emoções em animais com seu livro dedicado ao tema: A expressão das emoções no homem e nos animais. Ele observa que a emoção é inata e se mantém ao longo do processo evolutivo, garantindo poder adaptativo e a sobrevivência das espécies. Portanto, através do estudo secular da neurociência, foi possível identificar áreas específicas do cérebro humano responsáveis pelas emoções. Esse sistema de neurônios e estruturas cerebrais é chamado de sistema límbico, onde as amígdalas compõem a parte fundamental no processamento das emoções.

Em outras palavras, a amígdala seria então a parte mais instintiva do cérebro, enquanto a região do córtex cerebral o lado mais racional. Na demência de Alzheimer, ocorre um processo de morte de neurônios levando a déficits em diversas funções cognitivas (memória, linguagem, cálculo, solução de problemas e planejamento), ou seja, a perda neuronal se dá, principalmente, na região “racional” do cérebro.

Isso significa que uma pessoa com Alzheimer irá experimentar as emoções, mas será menos capaz de regulá-las e elaborá-las. Por isso, esses pacientes serão muitas vezes rotulados como tendo comportamentos inadequados ou irracionais.

A ideia de que é mais fácil esquecer uma lembrança ruim do que um sentimento ruim é absolutamente correta, especialmente nos portadores de demência. O paciente com Alzheimer normalmente esquece as circunstâncias que levaram a uma emoção, mas essa emoção permanece armazenada por algum tempo.

Vamos considerar o seguinte cenário para exemplificar:

“Você é um funcionário de um centro-dia para idosos incluindo alguns com diagnóstico de Alzheimer. A esposa de um dos seus clientes lhe conta sobre o seu marido, “o Alzheimer dele está avançando, ontem depois de buscá-lo no centro-dia ele ficou irracionalmente agressivo e hostil comigo, não se comunicou durante todo o resto do dia.

Imagine se você também soubesse de todo o contexto da situação:

“Quando a esposa chegou para buscar seu marido, ele estava de pé no hall de entrada conversando com alguns funcionários e outros colegas do centro-dia, a esposa se juntou à conversa e enquanto seu marido estava falando, ela começou a limpar sua boca manchada de chocolate e ajeitou o zíper da calça que estava aberto. Ela fez isso na frente dos outros e seu marido se sentiu humilhado e constrangido, mas ela não percebeu. Ele, portanto, reagiu com raiva e indignação no resto do dia.”

Essa estória reflete a importância de se conhecer todo o contexto pelo qual uma pessoa reage. Comportamentos emotivos ocorrem por alguma razão. E uma pessoa com demência pode ser facilmente rotulada como irracional ou com comportamento inadequado apenas pelo fato de ter demência.

Em outras palavras, o paciente do cenário descrito era incapaz de articular e elaborar os detalhes da situação que o deixaram com raiva, mas o sentimento, a raiva daquela situação estava em sua memória sentimental.

Por isso, devemos tratar os pacientes com demência com respeito, consideração e afeto. As pessoas com Alzheimer sentem e experimentam a vida muito mais do que imaginamos.

Termino com as sábias palavras de William Shakespeare que resumem esse texto: “lembrar é fácil pra quem tem memória. Esquecer é difícil pra quem tem coração”.

A Dra Alice Jerusalmi é Geriatra do Instituto Clinics.

08/10/2017

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