O parto em casa é seguro?

Dr. João Marcello de Araujo Neto
Clínica Médica
08/01/2016

Desde que a ciência médica obstétrica moderna se desenvolveu, muitos grupos clamam que os partos voltem a ser realizados em casa. Trata-se de uma controvérsia fundamental sobre o assunto e que ainda hoje eleva os ânimos em todo o mundo.

Na publicação, a revista usa como exemplo o caso de uma mulher de 31 anos que está grávida do segundo filho. Sua gestação atual foi completamente normal e o bebê está próximo de nascer. Na última consulta, a mulher pergunta à equipe obstétrica se pode realizar o parto em casa.

Baseando-se neste caso, a revista abre espaço para a opinião de duas médicas especialistas no assunto: Dra. Sarah Little e Dra. Linda M. Szymanski .

A Dra. Little descreve que trata-se de uma candidata ideal ao parto domiciliar. É uma mulher saudável com uma gestação prévia sem complicações e com pré-natal atual adequado. O bebê é único e está em posição cefálica pronto para o parto. Ela destaca que independente do local onde o parto for ocorrer, a via preferencial será vaginal (parto normal) . A médica destaca que estudos científicos prévios são conflitantes sobre dados referentes ao risco de morte de bebês quando comparados os partos domiciliares e hospitalares. Ao final, a especialista conclui que considerando os vieses, o risco de mortalidade perinatal parece ser duas vezes maior nos partos domiciliares e questiona se este risco é aceitável frente ao conforto do parto em casa.

Quem contrapõe a argumentação da Dra. Little é a pediatra Dra. Szymanski. Ela destaca que o parto domiciliar pode ser um sonho, mas que quando ocorrem complicações, o pesadelo é devastador. A pediatra cita que em 2011 o Colégio Americano de Ginecologistas e Obstetras analisou todas as evidências científicas disponíveis sobre parto domiciliar e concluiu que o local adequado para que mulheres deem a luz aos seus filhos são hospitais ou clínicas obstétricas. Ela cita o estudo da equipe do Dr. Snowden em que a mortalidade de bebês em partos hospitalares foi de 1,8 a cada 1000 nascimentos ao passo que em partos domiciliares foi de 3,9 a cada 1000.

A Dra. Szymanski destaca que para que um parto domiciliar seja considerado viável, a mãe precisa ser uma candidata apropriada, estar informada dos riscos potenciais, ter feito pré-natal adequado e ter uma equipe de transporte hospitalar pronta para qualquer intercorrência. Todavia, ela conclui que mesmo nos EUA a concomitância de todas condições não é adequadamente alcançada.

Em meio à polêmica, tomo a liberdade de citar uma frase do poeta britânico Alexander Pope: ”Quem se encontra empenhado numa controvérsia preocupa-se tanto com a verdade quanto um caçador se preocupa com a lebre.”

Então para finalizar este texto proponho uma matemática de conceitos.

A verdade só existe na ciência. Com isto, não podemos fugir aos dados: partos domiciliares apresentam maior risco de complicações e morte de bebês.

O objetivo principal de um parto é promover o nascimento de uma criança garantindo que ocorra da forma mais saudável possível para a mãe e para o recém-nato.
Concluímos que no Brasil em 2016 os partos devem acontecer em hospitais ou centros obstétricos especializados. E ponto final.

Referências:

MaryAnn B. Wilbur, M.D., M.P.H., Sarah Little, M.D., M.P.H., and Linda M. Szymanski, M.D., Ph.D. N Engl J Med 2015; 373:2683-2685December 31, 2015DOI: 10.1056/NEJMclde1513623

Snowden J, Tilden E, Snyder J, Quigley B, Caughey A, Cheng YW. Planned out-of-hospital birth and birth outcomes. N Engl J Med 2015;373:2642-2653

ACOG Committee on Obstetric Practice. ACOG Committee Opinion No. 476: planned home birth. Obstet Gynecol 2011;117:425-428

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