Nossos médicos estão saudáveis?

Ninguém duvida que a rotina de médicos é bastante árdua. Logo após o término da graduação, iniciam-se os programas de residência com 60 horas de trabalho semanais. Em geral, os jovens médicos engajam-se em consecutivos plantões de 12 ou 24 horas e, sem descansar, no dia seguinte, já recomeçam a labuta.

As longas jornadas são sempre desempenhadas em uma rotina de muita pressão e estresse. Os médicos vivenciam literalmente as dores da morte e a felicidade da cura, todos os dias. É como ir de um extremo a outro dos sentimentos humanos em questão de minutos. E mente quem diz que o médico passa por tudo isto sem se envolver com as emoções de seus pacientes.

Nas últimas décadas, muitos estudos evidenciaram altas taxas de burnout, depressão e suicídio entre profissionais de saúde, especialmente médicos. A síndrome de burnout acontece quando profissionais são levados ao completo esgotamento físico e emocional secundário ao estresse no trabalho.

Estes fenômenos são descritos em hospitais em todo o mundo, especialmente entre jovens médicos (e também estudantes de medicina). Em março deste ano, o New England Journal of Medicine – o periódico científico de maior relevância acadêmica no mundo – publicou um artigo abordando este tema. No brilhante texto, o médico americano Adam Hill que trabalha com cuidados paliativos pediátricos conta sua história de depressão, alcoolismo e tentativa de suicídio. Ao longo do texto, o autor traz à tona sentimentos comuns à médicos em todo o mundo: jornada excessiva, alta demanda profissional e depreciação das atividades.

Olhando para a saúde brasileira, vemos, cada vez mais, grandes empresas nacionais e internacionais comprando hospitais em todos os maiores centros urbanos do país. Todo dia, um novo private equity compra uma clínica oftalmológica, um centro de quimioterapia ou uma clínica que eram geridos anteriormente por médicos. Ao mesmo tempo que este fenômeno promove maior eficiência na gestão hospitalar, também traz consigo a lógica de produtividade em massa para a relação médico-paciente. A medicina passou a ser pensada na lógica de mercado. Saúde é, agora, um bom investimento financeiro.

Os pacientes se tornam clientes e os médicos trabalhadores que necessitam render cada vez mais para os fundos de investimento. É neste contexto que me pergunto: são nestas estruturas hospitalares que vamos cuidar da vida de nossos pacientes e de nós mesmos?

O trabalho de médico é por definição artesanal. É necessário tempo, perseverança, doação e compaixão para construir uma relação médico-paciente. O exercício genuíno da profissão depende deste binômio. Toda vez que os médicos e demais profissionais de saúde são forçados a produzir como máquinas, vemos explodir burnout, depressão e suicídio.

A saúde dos médicos é um espelho das transformações que vimos acontecer nas últimas décadas nos sistemas hospitalares em todo o mundo. É preciso que a sociedade repense os modelos de saúde sem jamais esquecer que o produto do trabalho do médico são vidas humanas.

Desejamos que todos os médicos que possamos exercer a sua missão com altruísmo, ética e honra profissional.

Dr João Marcello Neto – Hepatologista do Instituto Clinics

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