Cirurgia Oncológica e Cirurgia Geral

O ano passado, sem dúvida, um ano de relevantes mudanças para os cirurgiões e oncologistas. Houve novidades não só no que concerne ao diagnóstico precoce e tratamento adequado do câncer, mas também no âmbito político para estas duas especialidades.

Em 2017, o câncer de mama continua sendo o mais prevalente entre as mulheres e o câncer de próstata é o que mais acomete os homens. Na neoplasia da mama, a evolução progressiva das medidas terapêuticas tem possibilitado um aumento substancial no tratamento cirúrgico conservador com preservação da mama e manutenção do mamilo. Com isto, há, atualmente, menores taxa de esvaziamento linfático axilar que evita a sequela do edema do braço. Nos casos mais avançados, nos quais a preservação da mama não é possível, as técnicas de oncoplástica com reconstrução imediata da mama têm sido cada vez mais empregadas com sucesso e resultados estéticos muito bons.

Neste ano, embora muito controverso e com resultados discutíveis, as técnicas de resfriamento capilar para reduzir a queda de cabelo durante o curso da quimioterapia foram aprovadas pela ANVISA.

Para o câncer gástrico, além da consolidação da cirurgia laparoscópica minimamente invasiva como um método cirúrgico com ótimos resultados, no último Congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), foram apresentados dados robustos que mudaram o protocolo de quimioterapia pré-operatório. O esquema hoje conhecido como FLOT-4 é bem tolerado pelo paciente no que diz respeito a toxicidade relacionado a quimioterapia e apresenta melhores resultados prognósticos em relação aos tratamentos antigos.

No câncer colorretal, três acontecimentos, dentre os muitos, devem receber destaque. Primeiro, o maior conhecimento genético dos tumores colônicos. Após estes estudos, os tumores do cólon direito e esquerdo passam a ser diferenciados quanto ao seu perfil genômico e molecular, mudando assim o tratamento quimioterápico. Em segundo lugar, as ressecções cirúrgicas para o câncer de reto têm se tornado cada vez mais consevadoras, com redução dos casos que necessitam de amputação do reto e ostomias defintivas. Por fim, cabe ressaltar o papel crescente da hipertermoquimioterapia na doença colorretal metastática. As metástases para o peritônio, até recentemente, continuavam a ser um sinônimo de prognóstico reservado. Embora ainda não seja consenso, a utilização da hipertermoquimioterapia para casos selecionados de metástase peritoneal tem sido muito realizada em protocolos de pesquisa ao longo do mundo com resultados animadores.

Também é importante citar como tendências: uma redução ainda tímida dos casos de câncer de colo uterino no Brasil, porém muita abaixo do desejado; a grande melhoria no tratamento e prognóstico dos pacientes com melanoma metastático através da imunoterapia; e, por fim, diferentes protocolos de tratamento do câncer de ovário, incluindo a quimioterapia intraperitoneal, hipertermoquimioterapia para casos de disseminação peritoneal e a necessidade ou não do esvaziamento dos linfonodos retroperitoneias. Esta última conduta foi muito questionada no Congresso da ASCO 2017 pelo estudo “LION: Lynphadenectomy in ovarian Neoplasms – A randomized AGO study group led gynecologic cancer intergroup trial” que não evidenciou benefícios em sua realização.

No âmbito nacional, através da resolução no 2.162 do Conselho Federal de Medicina, publicada em diário oficial no dia 17 de julho, a cirurgia oncológica passou a ser considerada uma especialidade médica e, não apenas uma área de atuação dentro da cirurgia geral. Embora tardia, visto que já existe residência médica nesta área há décadas no Brasil, foi uma conquista muito bem-vinda. Esta importante mudança, que segue o modelo dos principais países do mundo, fortalece a especialidade e a ideia de que o câncer deve ser tratado por um profissional especializado com expertise neste assunto. A grande velocidade de aperfeiçoamento dos métodos de diagnóstico e terapêuticos faz dessa ”superespecialização” um modelo imprescindível, inevitável e relacionado a melhores resultados mesmo a curto prazo.

Na cirurgia oncológica, mais de 70% dos pacientes com tumores malignos são operados, em algum momento do curso de sua doença, e o profissional que procede esta cirurgia é fator prognóstico importante neste processo. Isto já foi bem estudado e publicado na The Lancet Oncology – uma dos periódicos científicos com maior fator de impacto da área. Em edição especial, esta revista publicou um relatório intitulado “Global Cancer Surgery: delivering safe, affordable and timely cancer surgery” de uma comissão coordenada pelo Dr. Richard Sullivan, do Institute of Cancer Policy – King’s Health Partners Comprehensive Cancer Centre, em Londres, Inglaterra. A publicação relata, entre outros dados, a importância do cirurgião especialista em câncer.

Já no que diz respeito a cirurgia geral, foi aprovado em meados deste ano pela Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), o aumento da duração do programa de residência médica em Cirurgia Geral de dois para três anos. Esta alteração curricular já havia sido solicitada pelo Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC) desde 2010 e, finalmente, foi contemplada. No mundo, a formação do cirurgião geral é de 5 anos, em média, e entendemos que dois anos não são o suficiente para o treinamento adequado de profissionais com o conhecimento necessário.

Dr. Antonio Felipe Santa Maria – Cirurgião Geral

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